Viva a Aventura
 

Eu era um surfista, isso mesmo, era! A natação em águas abertas tomou meu coração…
Conto aqui como isso aconteceu, não foi aos poucos, foi mesmo como um clique, de um momento para outro!

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Tive a sorte de conhecer muitos lugares com ondas cinco estrelas em quase todos os continentes, viajei a vida toda com um único objetivo, surfar!
Paris, Roma, Londres não estavam dentro no mapa do meu mundo, enquanto os amigos desfrutavam das grandes metrópoles e das compras, eu adorava ir até os confins do mundo, onde o acesso não era fácil, onde não tinham turistas, onde as ondas estavam sozinhas ao amanhecer…

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Em 2007, quando fiz 40 anos, me dei de presente um ano sabático e decidi ficar a maior parte do tempo no Hawaii, foi do início da temporada até o final, eu quis desta forma, porque eu desejava me adaptar ao aumento do tamanho e da pressão que estas ondas tinham, queria ganhar confiança para que no final da trip eu não perdesse nenhuma delas, e assim poderia desfrutar das maiores e melhores ondas da minha vida!

A estratégia foi perfeita e deu certo, surfei ondas famosas, disputadas com desenvoltura e tranquilidade, porém… Isso acabou com o meu surf!

Isso mesmo, por mais contraditório que pareça, surfar estas ondas, provavelmente as melhores do mundo em plena forma física elevou o meu nível a um grau jamais experimentado antes, e ter que abandoná-las foi um choque muito grande.
O que eu poderia fazer? Nada, pois minha vida era no Brasil e eu já tinha raízes bem fincadas em Camburi, empresa, família, cachorro e amigos… O retorno para o litoral de SP foi traumático, as condições dos mares daqui são muito diferentes, era sempre a mesma coisa, um dia estava pequeno demais, no outro grande, porém sem formação e desta forma foram tantos dias desmotivado para surfar que quando me dei conta, já se passavam mais de três anos…

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Depois desta fase, sabia que não seria fácil retomar o ritmo, e então em 2011 decidir surfar sozinho em algum lugar que ainda não conhecia, e no final das minhas buscas, decidi ir o mais distante possível, o destino escolhido havia sido as Ilhas Fiji, um país-arquipélago no meio, mas bem no meio mesmo, do Oceano Pacífico… Longe de tudo!

Fiji é um paraíso de lindas ilhas e altas ondas, resolvi ficar em um local muito pitoresco, fiquei hospedado ou melhor dizendo, ilhado por 35 dias em uma pequena pousada debaixo das folhas dos coqueiros, com varias árvores frutíferas, gramadinho verdinho, uma pequena praia de areias brancas e com um mar azul jamais visto em minha vida, um lugar paradisíaco exatamente como eu planejava.

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Porém no finzinho da trip, tudo mudou, foi um dia muito diferente do planejado, logo após o café da manhã servido em uma varanda bem arejada, com ovos, frutas e torradas com geléias de sabores que jamais havia experimentado , entrei no pequeno barco rumo a ilha principal, de lá no dia seguinte voltaria para o Brasil… Pois bem, aconteceu que justamente no meio do caminho, a gasolina acabou ou alguma peça havia quebrado… Isso mesmo, imaginem a cena, estava eu no meio do oceano, sem água, sem comida, sem telefone, sem sombra para aguardar algum socorro, fiquei mesmo bem preocupado com a situação, imediatamente lembrei do filme do Tom Hanks, será mesmo que vou vivenciar um momento de terror neste local lindo, será que viria a ser um Náufrago?

Por sorte o barco tinha uma máscara de mergulho e eu não pensei muito, enquanto tinha as forcas matutinas e corpo hidratado, tomei uma decisão que assustou os outros que estavam no pequeno barco, decidi ir à nado! Eu não via mais a ilha em que havíamos saído a uns 20 minutos, já estava longe de mais para voltar e a próxima ilha ainda estava longe, porém visível… Pensei que mesmo que fosse no fim do dia, o dia todo, mesmo que fosse uma parte à nado e outra remando em cima da prancha, eu chegaria, eu tive esta com certeza!!!

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O Fijiano arregalou os olhos, levantou os braços e disse! “BROTHER, TEM MUITOS TUBARÕES NESTAS ÁGUAS!!!” Eu sabia, lógico que tinha… mas não deixei isso me abalar, sabia que em um ambiente tão rico, com tanta vida marinha eu não seria o prato do dia!

Coloquei a camiseta de Surf de manga longa, o lash no tornozelo para levar a prancha a reboque comigo, reforcei o protetor solar e fui! Quando mergulhei… ao entrar nas águas azuis, não posso negar que deu um frio na barriga, o azul profundo, os raios do sol entrando até o fundo, um mundo silencioso… A adrenalina entrou na corrente sangüínea e o medo veio! Me controlei, procurei me acalmar, estava consciente e então me foquei na missão, comecei a nadar e não olhei para trás, sabia que estava definitivamente me afastando do barquinho. O que eu sabia era, que se ficasse ali teria feito uma aposta muito alta, nadando eu teria uma chance maior de me aproximar da ilha e me salvar, dependeria mais de mim do que do fator sorte!

E em poucos minutos me senti muito confortável, comecei a repeti para mim mesmo como um mantra, eu estou indo bem, eu estou indo muito bem… eu estou indo bem, eu estou indo muito bem… eu estou indo bem, eu estou indo muito bem… passava a mensagem para minha cabeça não deixar cair no foço do medo, da insegurança.

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O incrível desta historia é que eu Nunca tinha participado de uma maratona, nem sequer de uma aula de natação na vida, nadei pela primeira vez uma distância dessa, estava só, sem nenhum apoio, não sei informar a distância, mas demorou 4:30h e isso nos dias de hoje na minha atual velocidade de maratonas com 14Bis ou Alcatrazes, sugere que tenha nadado uns 15k.

Quando finalmente me aproximei da costa, tive a sorte de ter chegado em uma área de mangue, não tive que passar por ondas e corais, andei por quase uma hora e cheguei a um vilarejo, pedi ajuda, mas não foi fácil convencê-los a sair para o mar com uma histórias destas, a ir pro mar no fim de tarde em busca de algo que não se sabe onde esta, eu não tinha a menor noção da direção que havia nadado, não sabia o nome na língua local da ilha em que havia me hospedado, e com muita sorte eles toparam ir comigo tentar encontrar uma agulha no palheiro, depois de mais de uma hora nos os encontramos, foi muita sorte, estavam muito emocionados e muito queimados, foram ao todo mais de 7h de exposição ao sol, no final tudo deu certo, encontramos o barco com as pessoas que estavam aguardando por um milagre!

O positivismo me salvou, foi o fator decisivo para que eu conseguisse sair daquela situação, focar na solução e não pensar na hipótese de não dar certo foi a melhor fórmula…

A força do pensamento tem muito poder!

Quando cheguei ao Brasil, me senti capaz de nadar por todos os lados, para todas as ilhas…
Fui até as ilhas 1.5k, até a Ilha dos Gatos 3.5K e não parei por aí, começamos a fazer idas e voltas até o dia que fui até o Montão de Trigo 15k, este dia foi muito especial, pois os ilhéus me disseram que nunca tinham visto alguém chegar à nado, não tenho como confirmar isso, mas pelo que sei, fui o primeiro nadador a chegar lá!

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O universo conspirou a meu favor, fiquei sabendo da maratona 14 Bis, imaginem… Eu era um ser que não conhecia nada de natação, tão fora deste universo que nem sabia que um ser humano poderia nadar uma distância destas e sair vivo ainda, rsss

Foi em um domingo a tarde que sem querer, conheci o atleta Marcelo Teixeira (Kinkas), ele tinha conquistado um pódio naquela edição… O que aconteceu comigo após este encontro foi um divisor de águas, comecei a nadar em piscina diariamente e focado na próxima edição, e foi assim, no mês de dezembro 2012 lá estava eu, na frente do forte São Jorge para este desafio gigante que é nadar os 24k com correntes e águas vivas e muita adrenalina…

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Tudo aconteceu muito rápido, cada dia nadando um volume um pouco maior, alguns anos depois, fiz minha primeira travessia Camburi a Alcatrazes 40k, um feito inédito em um lugar maravilhoso.

Foram 3 anos seguidos, 2016, 2017 com travessias diurnas e 2018 esta última noturna com chegada pela manhã, o que nos proporcionou um registro dos melhores momentos do desafio e da minha chegada!

40k  Camburi Alcatrazes  Ricardo Augusto  1 Travessia Abril 16  Foto Evandro Borges b.jpg

2016

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2017

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2018

Tudo isso fez com que os amigos me pedissem para falar e também queriam muito nadar nestes lugares maravilhosos, foi destes bate-papos que surgiu a idéia da primeira volta à nado em Alcatrazes.

O primeiro evento foi no fim de 2017, um marco histórico, pois foi realizado alguns dias após a abertura das visitações públicas ao Arquipélago, que até então havia ficado por mais de 30 anos sob a guarda da Marinha do Brasil, com acesso proibido.

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Convidei seis grandes atletas das águas abertas, nomeados de EMBAIXADORES para serem os primeiros a dar a volta no arquipélago comigo. Estes atletas fizeram um trabalho fantástico de divulgação do objetivo do evento: Divulgar a abertura para uso público de Alcatrazes aliada à conscientização da importância da preservação de áreas como estas em nossa região.

E no ano de 2019, aconteceu a segunda edição de Alcatrazes, com 30 atletas convidados e mais uma vez, todos os atletas completaram a volta e escreveram seus nomes na história das águas abertas, mais de 500 mil pessoas foram impactadas pelas mídias sociais, jornalismo digital e impresso.

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Com tanto sucesso, o assédio foi aumentando e muitos atletas querem conhecer essas regiões isoladas com essa equipe de campeões.

Agora o projeto Viva a Aventura prevê eventos em lugares como Noronha, Bonete, e outras localidades paradisíacas, e também uma série de palestras de atletas consagrados e de ambientalistas, para que possamos aprender mais sobre estes lugares tão importantes para a vida do planeta.

Aqui eu disponibilizo alguns vídeos que ganhei de amigos talentosos onde conto uma parte desta epopeia!

Treino noturno, preparação para Alcatrazes 2016 com raios, trovões e AC/DC.


Espero que tenham curtido e que venham nadar com a gente em breve!

Um abraço Ricardo Augusto











 

E nossas histórias estarão para sempre interligadas!

 
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